FENDÓ: O Descanso da Guerreira

Desde o dia 06 de março de 2014, já não está mais entre nós a senhora Ana da Luz do Nascimento, nome brasileiro da kaingang Fendó, marcante figura da Aldeia Toldo Chimbangue, de Chapecó, SC.

Fendó foi testemunha viva e também personagem ativa, sempre presente em atos e vigílias em defesa dos direitos dos seus iguais. Sua memória precisa ser preservada para servir de exemplo como resistência à usurpação dos direitos de quem estava aqui antes do homem branco chegar.
Do lado “branco”, vão ficar poucas imagens e recortes de pequenos jornais locais, graças ao empenho de algumas instituições que lutam pelos direitos e pela dignidade das minorias indefesas – minorias que, somadas, formam a maioria num país de tanta desigualdade social.

Gostaria que o meu documentário videográfico Fendó – Tributo a Uma Guerreira, de 2000, também fizesse parte desse acervo. Mas a esperança maior da preservação da memória de Fendó está na tradição indígena de contar oralmente a história dos seus feitos, heróis e mártires, de pais para filhos.

Por quê essa reverência por uma miúda, franzina, pobre e muito idosa índia? Pois foi ela quem despertou minha atenção na foto em que aparecia entre mulheres brancas numa publicação de 1999 do CIMI – Conselho Indigenista Missionário. Ela estava entre as homenageadas no Dia Internacional da Mulher, em Chapecó.

Estava no fim do ano e eu queria conhecer Fendó. Queria saber porque aquele pequeno e maltratado ser humano, um vivíssimo retrato do abandono do país, mereceu a mesma homenagem das senhoras que estavam ao seu lado.

luminada a partir do nome poético, Ana da Luz do NascimentoFendó   revelou-se sábia. Mostrou-me que sabia tudo dos homens, principalmente dos brancos, os loucos por terras. Sabia tudo sobre sofrimento, a exemplo de todos os kaingang, a exemplo das inúmeras nações indígenas – celeremente a caminho da extinção. Sabia o que deveria ser feito para que o branco não violentasse pelo menos o meio-ambiente.

Os mestres da preservação, os índios, sabiam como usufruir da natureza sem violentá-la. Por isso, foi com muita autoridade que, encarando a câmera, Fendó sentenciou: “O branco é um inço!”

Apesar das imensas dificuldades para realizar o documentário e da pobreza de recursos, foi muito prazeroso conhecer Fendó e sua família, conhecer a sua história, a história dos kaingang no que eu chamo de velho oeste catarinense. Valeu a pena, porque como eternizou o poeta, a alma não era pequena.

Penna Filho

Crédito : As fotos fixas do documentário foram feitas por Eliane Fistarol, de Chapecó, SC.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *